O tromboembolismo venoso (TEV) é uma complicação comum em pacientes com câncer e uma causa significativa de morbidade e mortalidade. Ocorre em, aproximadamente, 4 a 20% dos pacientes com câncer, embora se acredite que essas taxas sejam subestimadas. Apesar de ensaios clínicos randomizados terem demonstrado que a profilaxia primária possa reduzir o tromboembolismo venoso, e diretrizes profissionais de diversas associações tenham publicado inúmeras recomendações, há, ainda, uma variação considerável entre os profissionais envolvidos em oncologia, em termos de adesão.
Devido ao risco de tromboembolismo venoso ser tão elevado entre pacientes com câncer, alguns especialistas acreditam que a sua profilaxia deve estender-se a todos esses pacientes, incluindo aqueles no cenário ambulatorial. Por outro lado, outros acham que não há provas suficientes para apoiar o emprego universal nesta população e que a profilaxia deveria ser administrada somente naqueles com fatores de risco conhecidos. Ambos os lados da questão estavam presentes na discussão de pontos/contrapontos, no 33º Congresso da Sociedade Européia de Oncologia Médica (European Society of Medical Oncology – ESMO).
Hans-Martin Otten, médico e PhD, que apresentou o argumento para a utilização da profilaxia em todos os pacientes com câncer, ressaltou que o tromboembolismo venoso permanece não sendo diagnosticado e tratado adequadamente nestes pacientes. Dr. Otten é um oncologista clínico do Slotervaart Hospital, em Amsterdam, na Holanda.
“Há uma prevalência muito alta de tromboembolismo venoso entre pacientes com câncer”, declarou o Dr. Otten, “Na maioria dos casos, não é reconhecido. E há tratamentos profiláticos eficazes, tendo baixos custos e pouco risco de sangramento, então, por que não utilizamos?”.
Utilização em pacientes cirúrgicos e hospitalizados
Diretrizes atuais da Sociedade Americana de Oncologistas Clínicos (American Society of Clinical Oncologists – ASCO) recomendam que pacientes com câncer submetidos a grandes cirurgias, juntamente com aqueles não submetidos à cirurgia, mas hospitalizados, devem ser considerados candidatos à profilaxia para tromboembolismo venoso, na ausência de sangramento ou de outras contra-indicações. As diretrizes do Colégio Americano de Médicos Torácicos (American College of Chest Physicians) recomendam, também, a profilaxia para pacientes acamados com câncer.
Dr. Otten concorda: “Tromboembolismo pulmonar [TEP] é uma causa freqüente de óbito em pacientes hospitalizados e uma das principais razões para promover a profilaxia antitrombótica nos que estão em alto risco”, disse ele. “A taxa de fatalidades intra-hospitalares por tromboembolismo pulmonar gira em torno de 12%. E não somente o TEP fatal é importante, mas o tromboembolismo venoso sintomático é, também, um fardo para pacientes com câncer”.
Apresentando o ponto de vista contrário, Ajay Kakkar, MBBS, PhD e FRCS, concordou que há inúmeras situações nas quais o emprego de antitrombóticos é necessário, especialmente entre pacientes com câncer sendo submetidos à cirurgia. Dr. Kakkar é professor e presidente do Centro de Ciências Cirúrgicas e decano de relações externas de Barts e da London School of Medicine and Dentistry, no Reino Unido.
“O tromboembolismo venoso é um problema muito comum para pacientes cirúrgicos com câncer, havendo, realmente, dados concretos apoiando a profilaxia”, explicou o Dr. Kakkar.
Entretanto, os dados para outros tipos de pacientes com câncer são menos sólidos. Entre aqueles hospitalizados não cirúrgicos, há uma ampla variação na incidência de tromboembolismo venoso. “Sendo, portanto, inapropriado oferecer profilaxia a todos os pacientes”, disse ele. “Nós devemos identificar os subconjuntos que possam estar sob risco e tratá-los”.
Ele ressaltou que os dados sobre risco de tromboembolismo venoso em pacientes não-cirúrgicos com câncer são limitados. Embora estudos tenham demonstrado um benefício claro da profilaxia, em detrimento do placebo, somente um pequeno número dos pacientes incluídos nestes ensaios haviam tido câncer. “Os resultados podem ser extrapolados para pacientes com câncer”, declarou, “mas, neste exato momento, nós simplesmente não temos a informação”.
Apesar de as diretrizes recomendarem que pacientes hospitalizados não-cirúrgicos devam ser considerados candidatos para a profilaxia, o Dr. Kakkar explicou que os médicos precisam ser seletivos ao escolher quem está sob risco.
Pacientes ambulatoriais
As diretrizes da ASCO não recomendam profilaxia de rotina em pacientes ambulatoriais recebendo quimioterapia, devido aos conflitantes resultados de ensaios clínicos, ao potencial de sangramento, à necessidade de monitoramento laboratorial e de ajuste da dose e à incidência relativamente baixa de tromboembolismo venoso.
Entretanto, o Dr. Otten argumentou que tal profilaxia deve ser ampliada a esta população também, já que o tromboembolismo venoso é pouco reconhecido e, em cerca de 70 a 80% dos pacientes que falecem no hospital, nunca se considerou um diagnóstico de tromboembolismo pulmonar, explicou ele. “A maioria dos tromboembolismos pulmonares sintomáticos ocorre após a alta, no cenário ambulatorial, onde os médicos não vêem os pacientes com tanta freqüência”.
Alguns estudos evidenciam que a incidência de TEV sintomático, em pacientes com doença metastática avançada, é de 9%, disse Dr. Otten. “Mas a taxa de TEV assintomático é maior que 50%”.
Em oposição, Dr. Kakkar achou que a profilaxia de rotina não é necessária nesta população e apoiou as diretrizes atuais. O risco de tromboembolismo venoso entre pacientes submetidos à quimioterapia ambulatorial não é bem estudado e o risco global não é alto, afirmou. “Acredito que seja uma questão de julgamento nosso e de habilidade para selecionar os pacientes, em vez de prescrever de forma rotineira para aqueles de ambulatório”.
Questão complicada; pacientes muito heterogêneos
“Esta é uma questão complicada, mas está claro que pacientes com câncer, como um todo, têm um risco muito maior do que a população geral”, comentou Alok A. Khorana, médico e FACP, professor de medicina no James P. Wilmot Cancer Center, na University of Rochester, em Nova York. “Mas esta população é, também, muito heterogênea e o risco não é igualmente distribuído”, declarou em uma entrevista.
“Alguns pacientes estão sob risco muito maior do que outros e o principal problema é que nenhum estudo tem sido realizado especificamente nas populações acometidas por câncer”, disse ele. Dr. Khorana não participou da discussão de pontos/contrapontos da ESMO; ele foi abordado pelo Medscape Oncology para comentar.
Os mecanismos exatos do tromboembolismo venoso em pacientes com câncer estão, ainda, sendo definidos e a prevalência atual do quadro induzido pelo tumor não é conhecida, disse ele. Há muitos fatores de confusão, incluindo quimioterapia com ou sem o tratamento adjuvante, imobilização, doença metastática, cirurgia, tipo tumoral, existência de certas comorbidades e a presença de cateteres venosos profundos.
Dr. Khorana concordou que, embora os pacientes ambulatoriais em quimioterapia estejam sob maior risco para tromboembolismo venoso, ele varia. “Há subgrupos que estão sob maior risco devido ao tipo de câncer e outras comorbidades, sendo importante concentrar-se naqueles de alto risco”, declarou ao Medscape Oncology.
A fim de ajudar a identificar esta população entre pacientes ambulatoriais, Dr. Khorana e colaboradores desenvolveram um modelo simples para prever o tromboembolismo venoso associado à quimioterapia, utilizando variáveis basais clínicas e laboratoriais. Um modelo de risco foi derivado de uma coorte independente de 1.365 pacientes com câncer, sendo nela validado, com os resultados mostrando que era capaz de identificar os pacientes com um risco em curto prazo de, aproximadamente, 7% para TEV sintomático. Os dados foram publicados na edição de 15 de maio, na revista Blood.
Prolongando sobrevida
Uma questão não respondida é se o emprego do tratamento antitrombótico pode prolongar a sobrevida sem tromboembolismo venoso de pacientes com câncer. Poucos ensaios clínicos têm sugerido um benefício de sobrevida, segundo Dr. Kakkar. Embora alguns resultados tenham sido encorajadores, eles são variáveis e, geralmente, demonstram benefício clínico somente em análises de subgrupos.
“Necessita-se de mais dados concisos, não sendo possível, agora, fazer recomendações”, declarou Dr. Kakkar.
Roxanne Nelson Clique aqui e leia mais…